Está frio, meus olhos fechando, meu estômago dói. Não deveria ter ficado acordado escrevendo, escrevendo. Se passam das quatro e todo o café só me faz até agora receber uma porrada constante no estômago.
Você perguntaria por que diabos não vou dormir e continuo a escrever. Primeiro porque não é mais nenhuma merda de texto sobre linguagem, é mais um texto sobre sonhos. E, você sabe, quanto mais o tempo corre, mais o sonho vai embora junto, meio acoplado com ele, até que no dia seguinte você nem lembra de nada. Ele volta de vez em quando, você pergunta: "já passei pro isso antes?", e passou, passou mas deitado na cama de olhos fechados. Você pode ter sido herói de cueca sob lençóis, você pode ter sido vítima de meias e camiseta, rolando na cama e fugindo dos espectros. Só que você quase não lembra.
Assim que acordei, com aquelas borboletas – ou qualquer outra coisa – fazendo cócegas dentro de mim – justo no lugar onde recebo a porrada constante do café – já tinha esquecido boa parte de tudo aquilo que fiz enquanto deitado. Acho que estava de calça moletom. É, fiz tudo aquilo de moletom e camiseta branca. Mas quando acordei já estava tudo meio sem forma, tudo meio borrado, as tintas molhadas e misturadas; só que eu podia ver algumas nuances, meio que um impressionismo mal feito.
Tudo que estou estudando esse ano, esse negócio de deslocamento, condensação, sobredeterminação do Freud me veio pra cabeça assim que abri os olhos de manhã. Essa coisa louca de sonho, que, como dizem, Freud explica. Só que acho que nada explica você ficar pedindo o meu celular. Até veio o frio na barriga. Foi bem real, mas não sei se senti, não sei se meus órgãos realmente mudaram de lugar, mas foi muito real, e eu fiquei com frio na barriga porque eu não sabia se te dava o celular ou o fixo.
Lembrei, assim como Freud explica, você queria me explicar alguma coisa que era bem melhor de ser explicada por telefone, uma coisa de voz, de diálogo veloz, nada de comunicação via tinta, papel, teclas, pingos nos is.
E foi estranho, lembro do seu amigo que tenta escrever de forma bizarra e depois me vi com a Paula sentado na calçada da Paulista. Ela estava com uma daquelas roupas de mulher que parece pijama – ou era realmente um pijama, de camiseta larga, meio camisola, e uma calça de pano leve, tipo aquelas que minha irmã usa de vez em quando para dormir. Acho que era pijama mesmo, porque ela pediu na padaria um café com leite e um pão na chapa. A Paula saiu da padaria – padaria pequena, espaçosa, retangular – com um copo descartável tampado na mão, o pão na chapa na outra e sentou-se na calçada. Na guia da calçada. Não lembro agora bem se eu estava com ela nessa hora do café com pão ou se eu era como uma câmera, que filmava tudo de longe. Sei que aquele pão parecia gostoso, crocante, meio úmido de manteiga, soltando milhares de migalhas na roupa e no asfalto. E olha que eu nem gosto de pão com manteiga.
A Paulista dessa padaria era uma Paulista estranha. Era meio que uma Paulista de Registro, meio que um bairro cinzento e de pessoas em forma de, não sei, nuvem. Não lembro das pessoas em volta, mas era a Avenida Paulista.
Tomando banho nesta manhã, correndo, eu imaginava se tinha padaria em plena Avenida Paulista. E agora, enquanto te escrevo, imagino como a Paula, sentada naquela guia da calçada não foi atropelada. Talvez até tenha sido, eu é que acordei antes.
Espero que não.
Sonhar é bom, mas dá tristeza depois. Dá frustração. Um meio aquilo que poderia ter sido e não foi. Mas pode ser, né, pode vir a ser, sempre tem uma esperança. Agora me deu vontade de cantar.
Vou dormir. Boa noite.