Um sem-número de passos
I
Desliguei o telefone e nada me guiava. Inventei desculpa qualquer para ficar só e andei. Garoa era fina. Eu quero sentar, pensar. Refazer mentalmente o caminho do diálogo – os horário de antes, de depois. Refazer mentalmente o caminho da relação: os humanos que formam fios entre si e que precisam andar sob uma linha-guia no chão para que ele, o fio, não se rompa.
II
Era um boteco da Augusta. Eu podia escolher dois tipos de bebidas: as que levam para dentro e as que levam para fora. Optei pelo primeiro tipo, e me veio um café expresso às dez e meia da noite. Fantástico na televisão; e, se você quiser, a gente pode falar de sacos plásticos: eu tento evitá-los, e muita gente não entende, não entende, não entende – são tão práticos! Quando acaba o café, e olho para a xícara, marca de borda poética. No fundo, resto de pó e doce. Parecem estrelas. O que dizem elas sobre mim? Meu futuro: minha casa, meus pares, minhas maçãs e pêras da fruteira. Ou talvez elas digam que devo me levantar, fingir que nada aconteceu, tirar o cabelo da testa e caminhar e. Não-não-não. Não sei o que me diz essa versão ocidental da borra no fundo da xícara. Eu mexo o ar com a colherinha enquanto olho o meu futuro, e eu nem presto atenção no futuro, eu apenas mexo o nada, eu olho o nada, eu não estou bem, não, não estou bem. E passa o garçom uma, duas, três vezes; talvez ele queira ir embora, talvez seja melhor eu ir embora.
III
A chuva aperta. Me abrigo perto dos que esperam o ônibus chegar. Eu espero um ônibus que nunca vai chegar, nunca-nunca-nunca. Olho para aquelas pessoas que querem estar logo em casa. Olho a água em linhas finíssimas vindo de cima. Quando o ponto esvazia, sento no degrau de um comércio. Eu e meu capuz do moletom. Guardadora de carros começa a falar com jovem ao meu lado. Ouço ela, ouço eu, e fim. Talvez agora eu não queira mais ficar olhando, vendo as pessoas passarem e tentando refazer tudo mentalmente. Olho o relógio de rua, lá em cima. Ainda há tempo, ainda há, não sei o que fazer.
IV
Resolvo fugir. Fugir. Isso até às 3h e pouco, quando me vou. Com cuidado.
4.4.08
Por
Saulo
às
13:14
1 comentários
1.4.08
extremidades avermelhadas; as pontas, os tocos, as rugas. está frio, 'cabei de correr, com gripe estou. desde já.
gosto assim.
Por
Saulo
às
00:57
0
comentários
20.3.08
mudança no olhar
ele é feio como uma mesa de centro. era isso o que as amigas do caminho das pedras diziam a Valesca. mas Valesca nem achava mesas de centro feias.
Por
Saulo
às
12:25
1 comentários
terceira pessoa do singular [II]
no meio dos papéis mortos, lá estava ele. por um descuido, quase achei que ele estivesse morto também, e com os outros finados iria para o reinos dos papéis que já cumpriram sua missão no mundo. mas lá estavam lá: "3ª pessoa", "como se escreve 'amar' em japonês?". e era uma escrita atemporal; não era minha letra de fevereiro, de dezembro ou de qualquer outro mês de letra. mas estavam lá, e foi tudo antes do dia em que levantei um pé do chão da primeira vez. é, foi antes, e eu já escrevia os textos com o sorriso dele, as roupas dele, a rua dele – e eu nem percebia que os textos dos outros eram, no fim, dele. e hoje, quando acho que ele já era, talvez os novos olhos sejam, na verdade, os dele.
Por
Saulo
às
12:21
0
comentários
terceira pessoa do singular
como se fala 'eu te amo' em inglês? e em espanhol? terceira pessoa do singular perguntava isso quase sempre quando nos encontrávamos. eu dizia: 'i love you', 'te quiero', 'te amo', terceira. ela não parava de pensar: será que 'love' é a mesma coisa que eu sinto quando amo? e será que o que sinto quando amo é a mesma coisa que se sente quando se ama?
eu nunca soube da resposta. até tentei pesquisar de forma séria/acadêmica; até, quem sabe, iniciar uma pesquisa científica. mas qualquer bibliografia consultada, qualquer tentativa de apreensão me remetiam à terceira pessoa. e então, no fim, eu apenas ficava com um sorriso pueril e as mesmas roupas de sempre.
Por
Saulo
às
12:17
1 comentários