5.6.08

baunilha

deu vontade danada de vestir o casaco e andar até o café. lá é tão quentinho, e o meu mocha vem com um coração de espuma de leite estampado.

mas a colherinha assassina todo o coração, que se desmancha inteiro quando se adoça o café.

o doce deveria deixar o coração intacto, afinal, quando a gente não tem coração, a gente é amargo, não doce. pelo menos é o que sempre me disseram, desde os três.

12.5.08

As idas

Sempre tive problemas em andar com cafés. Capuccinos e águas nunca foram problema; mas cafés, você sabe, não me deixam em paz nos caminhos de ida – porque mesmo que se esteja voltando, se está indo a algum lugar. Tento andar em linha reta, olhar para frente, manter as costas eretas, e o café me perturbando.

Nesta fase, você sabe, tenho de circular naquele lugar que é o quase circo dos horrores, onde as pessoas que são quase deformadas atrapalham meu caminho de ida, atrapalham minha linha reta e agravam meu problema em andar com cafés. As pessoas dormem nos veículos motorizados, as outras esperam horas mais horas nas filas do nunca enquanto as outras, na calçada, agonizam.

E é na lanchonete que me vêm as origens. A senhora a quem peço adoçante líquido come a coxinha e não me olha nos olhos, mas me faz o favor. As pessoas, todas devoradoras de coxinhas, comem. Comem coxinhas eternas, e eu volto ao meu caminho do café rumo ao transporte de motor.

Você sabe como é. As coisas do ônibus. Reencontros velados – não quero olhar, não quero, apaguei já. Mas a memória permanece. Anticorpos sociais. Eu voltei a fugir com os fones de ouvidos, agora só meus olhos trabalham, eu fujo e chego a outros lugares. Diga, por que colocastes os óculos? Ah, e tens uma pele tão boa... Eu mapeio a pessoa na pele e nos lábios, nos cabelos, na jaqueta, nas rugas e nos olhos – vêm, vão, perguntam. Tento fazer uma expressão tão neutra... Não é fácil ser neutro, ou tentar se dissolver no transporte público, ainda mais quando se está indo aonde todos de um estão ou todos de todos gostariam de estar.

E então eu chego ao outro novo caminho de ida, perto de outro quase circo dos horrores, mais afastado, mais provinciano, e ela me vem. Não tem dinheiro sequer para ser devoradora de coxinhas. Ou para sair da província, voltar para casa. Desde as nove sem comer, até as dezesseis sem comer. Que fazes? Que estudas? Ah, como eu queria! Tó, toma, só tenho isso. E me chega a desconfiança quando me afasto, na tentativa de caminhar um pouco mais. É que hoje me deu vontade de andar mais. Mais, mais, bem mais.

28.4.08

é o trabalho burocrático, nas noites de segunda-feira depois da carne vermelha e dos grãos de feijão, o ato de se levar o lixo para fora, e, no fora, a rua vazia. esquisito, porque às oito e pouco, quando voltei, ela ainda estava cheia. são as pessoas que devem ter essa síndrome das dez. e some tudo. eu gosto das dez.

22.4.08

eu contaria que comi um ovo frito, mas este texto tem a pretensão de ter um quê de melancólico, porque às vezes se senta e se quer escrever o que vem de dentro, e o que vem de dentro é a melancolia dos dias em que não se quer ser o mesmo, mesmo sendo o mesmo, o mesmo usando os tênis gastos do ano passado. falar sapatos seria mais melancólico que falar tênis – ou ovo frito – mas o tênis é de verdade.

e é a felicidade que deixa tudo assim. ou meio assim, do avesso, maltrapilho.

16.4.08

do batido e do ciro

seu c., também tem uma pedra no meu caminho. não é das pedras das mais bonitas e virtuosas, sabe, mas é muito valiosa, porque achar uma pedra não tão bela e cheia de imperfeições é coisa rara nesta vida. me disseram há um tempo (não lembro se foi o senhor) que oportunidades têm de ser agarradas nesta vida, ou, se utilizassem um trem como oportunidade, você tem de pegá-lo, porque ele nunca mais volta. eu nem sei se essa pedra, se esse trem pode ir logo e nunca mais voltar, nem sei se devo pegá-lo e ir a um destino desconhecido só para agarrar a oportunidade, porque é assim: pode vir coisa melhor, por mais que seja tudo isso um tudo bom, sabe? ou pode ser também aquela frase-kaufman, ou aquela frase-muitos, de um olhar que te olha e você se apaixona porque te olha. e esse olhar pode ser nada intencional, porque quando cai a árvore e eu me interesso por ela, isto, sim, é comunicação, e eu não sei se quando eu caio por alguém é comunicação; talvez seja se eu começar a misturar todas as teorias e dizer que quando a pedra me aparece no caminho é um acontecimento, e, sim, isso sim é comunicação.