12.6.08

dia dos namorados

não tem coisa mais bonita nessa vida que casal na motocicleta. não-pessoas pelo capacete. o jeans, a bolsa dela a tiracolo e sempre, sempre uma jaqueta.

de resto, já não sei.

10.6.08

filme sozinho

quando domingo anoiteceu, pensei em você no sofá. tem a cor daquela minha camiseta das tardes de sábado, e meu corpo era todo confundido. minha cabeça como que flutuava nos seus dedos que aravam os cabelos, tentando fazer sulcos.
momento em que não tem sentido perguntar para que é que serve a vida.

nos dias da semana, percorro tantos corredores e vejo tanto que nem sempre faz um sentido. lhe digo no banco do carro que nem tudo tem sentido, mas a verdade é que eu continuo buscando um, ou alguma coisa que se disfarce de sentido quando, nas noites, olho pelas janelas e vejo você nos cabelos e nas outras janelas, nos adesivos dos vidros e nas ranhuras das peles.

tem dia em que o ceú fica tão bonito que eu digo que a vida é feita para ver o céu, e eu digo que eu queria falar lugares-tão-comuns tão bonitos assim, como ele, como você, até o fim dos meus dias

8.6.08

3 x 5

Quinta-feita e mais carros na rua.

Perto de casa, os homens com as melhores calças e com latas de leite ou cervejam chegam às dez. Demoram no máximo vinte para chegar. (Lembra mamilo.)

Eu, a essa hora, estaria me arrumando para viajar por no mínimo meia hora e ir beber líquidos doces em copos plásticos com canudo colorido. (Fios de cabelo.)

Mas eu voltava das aulinhas de inglês. Acaba quase às dez, e há culto na igreja. Mais carros na rua. (Pés. )

5.6.08

baunilha

deu vontade danada de vestir o casaco e andar até o café. lá é tão quentinho, e o meu mocha vem com um coração de espuma de leite estampado.

mas a colherinha assassina todo o coração, que se desmancha inteiro quando se adoça o café.

o doce deveria deixar o coração intacto, afinal, quando a gente não tem coração, a gente é amargo, não doce. pelo menos é o que sempre me disseram, desde os três.

12.5.08

As idas

Sempre tive problemas em andar com cafés. Capuccinos e águas nunca foram problema; mas cafés, você sabe, não me deixam em paz nos caminhos de ida – porque mesmo que se esteja voltando, se está indo a algum lugar. Tento andar em linha reta, olhar para frente, manter as costas eretas, e o café me perturbando.

Nesta fase, você sabe, tenho de circular naquele lugar que é o quase circo dos horrores, onde as pessoas que são quase deformadas atrapalham meu caminho de ida, atrapalham minha linha reta e agravam meu problema em andar com cafés. As pessoas dormem nos veículos motorizados, as outras esperam horas mais horas nas filas do nunca enquanto as outras, na calçada, agonizam.

E é na lanchonete que me vêm as origens. A senhora a quem peço adoçante líquido come a coxinha e não me olha nos olhos, mas me faz o favor. As pessoas, todas devoradoras de coxinhas, comem. Comem coxinhas eternas, e eu volto ao meu caminho do café rumo ao transporte de motor.

Você sabe como é. As coisas do ônibus. Reencontros velados – não quero olhar, não quero, apaguei já. Mas a memória permanece. Anticorpos sociais. Eu voltei a fugir com os fones de ouvidos, agora só meus olhos trabalham, eu fujo e chego a outros lugares. Diga, por que colocastes os óculos? Ah, e tens uma pele tão boa... Eu mapeio a pessoa na pele e nos lábios, nos cabelos, na jaqueta, nas rugas e nos olhos – vêm, vão, perguntam. Tento fazer uma expressão tão neutra... Não é fácil ser neutro, ou tentar se dissolver no transporte público, ainda mais quando se está indo aonde todos de um estão ou todos de todos gostariam de estar.

E então eu chego ao outro novo caminho de ida, perto de outro quase circo dos horrores, mais afastado, mais provinciano, e ela me vem. Não tem dinheiro sequer para ser devoradora de coxinhas. Ou para sair da província, voltar para casa. Desde as nove sem comer, até as dezesseis sem comer. Que fazes? Que estudas? Ah, como eu queria! Tó, toma, só tenho isso. E me chega a desconfiança quando me afasto, na tentativa de caminhar um pouco mais. É que hoje me deu vontade de andar mais. Mais, mais, bem mais.