a água e o banheiro são os códigos para o ingresso. mas você não precisa mais disso. é por isso que não é de se estranhar tênis e meias no canto, pés no sofá, posições de conforto, frases desconexas. é só um macarrãozinho só com uma manteguinha e um queijinho e pronto, pode ficar aí no sofá, te levo. mas, como se é de código, a água é o momento mais demorado da cozinha - uma deixa para os dois. sobre tudo já se foi falado nesta noite - e há muito mais para isso.
de volta a cozinha, vamos ao capricho. escorre a água quente - ajuda a desengordurar a pia -, coloca na travessa, manteiga e queijo ralado na hora, cadê o ralador, meu deus, ele não vai aguentar de sono lá na sala, e rala o queijo, cheiro bom e não se precisa de mais nada.
na volta da sala, ele dorme no sofá e não acorda nem com a força de manteiga que se junta a queijo de ralo na hora. comer um só, então, e sem vinho. a noite vai ser curta. mas não se aguenta também e desfalece no sofá ao lado. novos baianos termina.
desculpa, desculpa, desculpa, desculpa. é assim o acordar no dia seguinte. e, que bom, ainda não é hora do almoço. vamos ao mercado, eu te faço alguma coisa, não queria ter dormido ontem. quando acordei no meio da noite, pra ir ao banheiro, e vi você no sofá, prato no chão, bateu aquela culpa. mas você não ia almoçar com sua vó? deixa pra lá minha vó, domingo que vem a gente almoça.
domingo aconteceu, mas sem nenhuma memória de guardar assim, de repente. fica a manteiga, o queijo e as desculpas. tá bom assim.
19.1.10
revista da folha
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Saulo
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02:29
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16.1.10
a 92
um automóvel, num dia como aquele, é tudo menos um automóvel. os ônibus continuam a passar com roupas comuns e desgastadas; àquela altura, pelo menos, a marginal é mais vazia.
e sempre tem um que troca as datas: bandas dos 60, coreografia dos 50; lady gaga, passos de bee gees; axé music temperada com corpos de underground.
também existem as bebidas funcionais. uma vodca boa, mas aguada de gelo e escondida em energético. o kiwi é fruta, mas sofre na coqueteleira. os passos com garrafas. tudo com uma intencionalidade. diferente de sentar - soft opening - e pagar.
foi nesse dia em que ela se apaixonou pela primeira vez por muletas. por mais que embriagadas e cobertas de gaze elas estivessem. quero andar com você num dia(,) claro, ela dizia a elas. vem comigo.
depois sempre tem um grandão bobão, o que era o sonho dela outra. e que cheiro bom. não que ele pudesse pagar uma bebida, mas era tão bobo, e ela tão boba que a mistura deu certo. mixologia.
e vem depois me perguntar - ou afirmar - se me conhecia. sim, eu conheço, mas conheço tanta coisa que desconheço tanto que vou te falar. é quando eu procuro o espaço para caminhar e cantarolo a canção dos 60 que o colega faz passos dos 50. depois disso, tudo dá certo.
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Saulo
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17:12
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9.1.10
véspera de véspera
lá do alto,
sua obsessão: olhar para o meu rosto. quase um roteiro não verbal: vem para baixo, sobe, mãos em minhas bochechas e um olhar que vem lá de cima - quantos centímetros sobre mim? depois, atrás, na frente, e mais meu rosto. eu, com milhão de perguntas abaixo, desisto.
tenho apreço por toda gentileza, que fique sabido.
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Saulo
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06:50
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27.12.09
papel' ou do que é preciso
do que preciso agora é um pedaço de papel. de planta que já foi viva e agora é papel, ou de papel que já foi papel e hoje vira papel linha, papel b, papel c, papel d.
se nas esquinas do que se pode chamar de companhia de toda vida encontrei um guarda-chuva, me pergunto por que não um pedaço de papel. não é fácil depender de quem precisa ser carregado a cada três horas!
é por isso que levo assim: aos pouquinhos. era de se economizar.
porque preciso do preciso. senão, dá vontade de pegar o avião - e olha que para acontecer precisa de muito. é que, mesmo a mim, não basta a vida da bolsa térmica com salada de quinua, passas, tomatinhos, pedacinhos de damascos, castanhas e suco de limão.
eu apenas digo tchau (muitas vezes nem isso) porque a vontade agora é de virar do avesso, do avesso de novo e do avesso de novo, mil e uma utilidades.
[banco da prainha, tarde chuvosa, companhia de formigas e notebook, dezembro/2009]
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Saulo
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14:30
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alvy singer
foram três outubros e quase no dia anterior: eu no meio da rua vazia, você em sua antiga casa, eu perto do Mackenzie, meia e bermuda no corpo na cama, filmes - talvez, "Annie Hall" -, e um "oi" no computador que, é, não se lembra muito bem. e tudo começou estranho desde aí: claro, escuro, claro, escuro, com eu que ainda espero, principalmente em outubro, quando tem chuva sim, chuva não e rua vazia e molhada com cheiro de natal. porque desse ano eu esqueci da sexta e não procurei pelas pessoas - e nem canudo colorido teve. nisso, pensei comigo sobre o dia da mão no cabelo e você, ah, que gentileza, que maravilha seria se a vida fosse uma costura de encontros, de sorriso bobo e ruguinhas que fecham os olhos. eu ainda te vejo nesses pontos de ônibus indo sempre nas mesmas manhãs de sábado, mas o trajeto, eu tento mudar.
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Saulo
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14:24
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