antes de você me sorrir naquela noite eu já não sentava no meu banco há meses, mais de ano, eu já não lia mais os mesmos autores que ficam mais perto sobre riscos tortuosos de grafite, que vira diamante forte, forte, quando vem você, forte, eu percebo e pulo da minha linha e ouço seus pés, um, dois, um, dois, um esmagar de folhas mortas, aí você me sorri de novo, uma pausa no autor 1, vamos para o autor 2, mas uma passadinha anterior no cenário 2: toda madeira desse mundo que aquece, eu escrevia, e um capuccino que não tem par, tal qual você e eu, e aquele pãozinho que deixa o forno, centeio, ervas, limão siciliano, azeite, pão de twitter, eu gosto mesmo antes de olhar, você não sei se antes ou depois, você com ruguinhas dos dois lados, vai ficar pra sempre aí, tende a, digo, um risinho, esquece isso, sem autores, cenário 3: o nariz que peregrina por entre os fios do rosto, juntos o tapete da sala, eu me perco, não sei mais quem, olho para fora, imagino como seria ver a cidade do prédio vizinho, quantos metros tem daqui pra lá, essa carta que você nunca lê eu deixaria o vento mais forte do jornal levar, levar, eu vou deixar.
17.5.10
2.5.10
saladinha de repolho
ele lê a bravo! sozinho na lanchonete. devora o hot dog que chamam de vira-lata: pão francês no formato de pão de cachorro quente, salsicha com leve sabor defumado, saladinha de repolho que lembra um vinagrete, gorgonzola de sabor pouco pronunciado. o não uso dos grandes molhos ajuda-o a sentir todas as "camadas" do sanduíche. o sabor do embutido predomina, e o pão, borrachudo, entristece a refeição. se não há como conseguir pão fresquinho à 1h da manhã, que não sirvam o lanche à noite, pensa, no alto de uma longa mastigada. é nessa hora que, faminto, o desconhecido conhecido adentra o lugar. a noite está fria, o recém-chegado veste aquela jaqueta preta que tira do closet no quase-nunca. senta ao lado, pergunta como anda o trabalho e pede sorvete. ao lado, o leitor de bravo! comenta que não gosto muito de sorvetes. só de alguns. aí o de jaqueta pergunta como vai a vida. se fosse famoso e pedante, ele responderia que não fala sobre vida pessoal. mas engatou a discursar sobre sorvete de doce de ovo. e sobre a saga do licor de ovo. depois, sobre sorvete salgado. fim.
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Saulo
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15:18
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15.4.10
celebration
a gente faria de tudo para tudo dar certo se soubesse o que é dar certo. até sonhar seria mais fácil.
aí a gente elege o filme, a peça, o livro e os dois goles de café.
continua.
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Saulo
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23:16
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27.3.10
era de ouro
de sábado para domingo numa sala de cinema, na companhia do meu ator preferido, um ou outro gole d'água e duas lágrimas antes do the end. comigo esse tipo de coisa não vem: o amigo me disse que chorou tanto no final de '500 dias com ela' que a mulher do lado perguntou se tudo estava bem e até o convidou para ir a um bar depois de lá. eu, por minha vez, sou entusiasta das fileiras vazias, o que não é difíil de se achar de madrugada. sempre gostei assim, desde os 16. ônibus, taboão para o top cine - e foi lá onde tudo começou: rohmer, raspadinha, visita à livraria, viena, duas gotinhas de lágima (artificial) em cada olho para as lentes de contatos. depois que acabou, no sábado depois, tudo que eu queria era conhecer o le jazz
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Saulo
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13:15
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17.3.10
talk
de quando você para o carro no meio da rua para que o outro desça e escale a morada. o horário não é de se ter emissora no céu ou no chão patrulhando o trânsito, mas um ou dois veículos querem que você siga em frente. de quando não há o que fazer além da descida, saída e batida de porta, findada a fala do até a próxima, mas não há menção de que o outro vá abandonar o veículo. de quando o som está baixo, mas você é capaz de reconhecer o roquezinho do mar do norte que nunca quis dizer nada demais e hoje passa a dizer tudo demais. o carro treme com seu pé vacilante na embreagem, a mão ainda no volante, tremelicando ritmada, bem de levinho, sua cabeça voltada discretamente para a direita, os quatro olhos que brincam de dançar o silêncio, e você se esquece, por ora, da marcha engatada em primeira, e logo o outro mostra o desejo de terminar de contar a história de virada de poucas esquinas atrás, e você estaciona de mau jeito em frente a garagem alheia, já que, àquela hora, ninguém vai se importar mesmo, e um conto é exposto com a maestria de um narrador que sabe a mágica de envolver pelo olhar, pelo sorriso, pelas ruguinhas dos cantos dos olhos, ao mesmo tempo em que, um tanto alheio, você sorri, consente com a cabeça, faz um ou dois comentários curtos, mas sua atenção dispersa, ora no volante, ora na boca ao lado, ora na música de fundo, ora no entorno sombrio, tornam a sua própria manejada de cabeça e a constante aproximação do outro quase imperceptíveis, dois corpos que vão se atraindo com a sutileza do passar do dia: quando se dá conta, tudo escurece - ou clareia de vez. de quando você esquece que tem carro, música, garagem e domingo, de quando desaprende que você é você e que o outro é o outro, de quando um brilho chega de cima, os olhos se fecham e vem um mergulho que dura um mar sem fim.
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Saulo
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