26.11.10

cabeça

'parece ouro preto', ele disse.

'nunca estive em ouro preto', eu disse.

e um mistério foi encontrado. primeiro, uma porta. depois, dois corpos. então, muitos e muitos e muitos mistérios mais.

confessei: 'gostei'.

e uma luz de não se ver bem. ao menos, escutei minhas canções prediletas. 'me lembram são paulo.'

mas dizem: aquele lá é do tipo de fazer esquecer da cidade. basta fechar os olhos.

eu digo: 'lembro de você, daqui de são paulo'.

6.10.10

Subterrâneos

– Como você faz pra deixar a barba assim, certinha?

– Oi?

– Como você faz pra deixar a barba assim? – repete Ele, mais alto.

No bar, um escurinho mixado com som alto de rock e três gotas de eletrônico. Tintins com vidros de martíni. “Saúde.” Misturas caras, de quase-nunca: gim inglês (Londres), purês de frutas, azeitonas nos espetos, alcaparrones pelos cantos.

NEle, medo número 1: ao falar alto, fazer doerem os ouvidos do Outro; medo número 2: cuspir nas têmporas do Outro com o aumento incomum de volume; medo número 3: deixar o Outro irritado com o teor pessoal/cosmético da questão.

Mas Outro é simpatia:

– Como assim, você não sabe fazer a barba?

E fala achando um pouco de graça. Pelo menos é o que sinaliza seu meio sorriso. Indecifrável é o sotaque.

– De onde você é? – pergunta Ele, com mais algum tipo de medo: o de a pergunta feita ser recorrente na vida do rapaz e, desse modo, aborrecê-lo.

Mas eram fragmentos de medos: vapores de medos que vêm e logo se dissipam – fica só o perfume. O medo ele mesmo permanece embaixo, preso.

E só eu sei: "de onde você é" soou melhor que "d’onde você é" que melhor seria que "você é mineiro ou carioca". É que o Outro tinha um quê de mineirice – uma, talvez, fofura-doce-de-leite-clarinho, se é que isso vem ao caso. Mas havia também uma raspinha de tacho de doce de leite mineiro de barba roçando universal de leve sotaque carioca [encaixe aqui].

Rio. Do interior do Rio, talvez.

Foi então que Outro respondeu que era capixaba, de uma cidade que poderia também ser chamada de Outra.

– Ah, já ouvi falar... – e não era mentira.

28.9.10

memorável

confesso que não tive tempo de pensar em você, senão naquele ínterim entre a conversa e a minha chegada de destino. no meio de um ou dois cochilos. nas trocas dos olhares entre o mesmo verbete e a avenida. e a outra avenida. e a outra outra avenida, tudo contra a tarde quente/seca/de espera. você olhou no meu olho, sorriu com a pálpebra. não consegui dizer nada. só pensei no seu lábio que constrói uma fala objetiva. no seu olho de você meio curvado, um fechado, outro aberto. no seu dedo sobre o botão. você dizendo sou mais cinema ela mais comercial. você dizendo você é o mesmo de ontem. você dizendo.

[s. paulo, v. nova, liberdade, l.a., umeboshi]

7.9.10

flamingos, 2

uma música do lado de lá de cima, os fones públicos, olho no cd, de olho em você na livraria, tudo isso tão fora de moda, e a saudade de ficar sentado ali a tarde toda, sem esperar nada.

visita

quando desço sua casa, a bahia já chegou.

eu, que pensava que sua morada, pelo nome, era sergipe mais bahia.

o carro parou, e eu caminhei por terras nunca antes caminhadas - vim de longe.

é o xampú, o caso bom, o pé descalço, você sabe.

e os pneus, que passam por caminhos nunca antes explorados. e a padaria, que não é a mesma da infância