cheguei em casa, tirei as meias, os pés respiram, esvaziei os bolsos, chiclete, moedas, carteira, papel, papéis, notas, chave. calça velha, calça folgada, camiseta branca - e velha -, sento-me, pensamento direcionado em um só algo. aperto os dentes nos lábios - a boca rachada. é esse frio que dá vontade de passear porque é muito mais gostoso sentir calor submerso em frio do que não sentir nada no tempo de lar. tem manteiga de cacau?
tinha cansado de escrever, talvez porque tivesse cansado de ficar com aquele pensamento direcionado. mas não deu. o frio me fez passar perto da sua casa de novo e lembrar da madrugada de pés no sofá, de cartas, de música esquisita, de suco de maracujá, de cerveja, de apresentações, de carona que te dei. não sei, às vezes fica tudo muito chato. eu pego um livro, eu sento no chão, eu bebo um chá gelado, eu deito no assoalho do meu quarto, eu babo no chão. eu tento ver um filme japonês, um documentário do Lula, pensar nele outro, fazer a dança da chuva. a civilização burguesa, a civilização do tédio, a minha civilização interna/insana/quero-dar-um-grito. e nada disso. não, tudo isso é muito ridículo.
29.4.07
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Saulo
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12:52
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16.4.07
foi em abril, com música, vodka barata; desmemórias
voltei pra casa meio assim, meio trôpego, meio moribundo, meio mole, meio olhos-secos, meio Chico, meio Banhart, meio rindo por quase tudo ou qualquer coisa. bem desse jeito mesmo. a voz mais grossa por causa da tanta gritaria, aquele incômodo na garganta e meu cantar esporádico, solitário; as mãos na direção. o sol já tinha aparecido e aquele era o horário e dia em que eu estaria, normalmente, indo, não voltando, se esse ano ainda fosse ano passado. eu desci e subi a Cardeal. à pé. eu pensei, pensei seriamente em te ligar, em ir pra sua casa lá do lado, bem do meu lado. não conheço sua casa de manhã. geralmente tudo fica mais bonito de manhã, e eu gosto mais das pessoas de manhã, mas de manhã bem manhã, antes das sete e meia. eu ia na sua casa tomar café e ver o jornal da Globo, mas desisti; àquela altura o nível da bebida já devia ter caido mais de 3/4, eu acho, e você, no sonho. eu sei que você é meio velho, mas você não acorda àquela hora que eu sei. entrei no carro, pra casa. e, também, eu já tinha comido; o pessoal todo andou até o café depois das cinco; pedi sanduíche, comi batatas chips. foi amanhecer comendo chips. manja amanhecer comendo chips? ainda bem que não fui aí mesmo. é que eu contaria sobre a volta do meu ridículo/anômalo sentimento em relação às meias azuis, lembra? pois é. lá dentro, na nada-calada da noite, talvez todos estivessem fora de si, ou pensando jazz, ou com vodka Natasha circulando pelo corpo. mas acontece que, não sei como, aquela mão se estendendeu de um jeito meio estranho, enconstou em mim, e eu peguei nas mãos de um jeito estranho também - nossos dedos meio entrelaçados, moles, molhados. e, depois, no escuro, no escuro da música e do calor e do suor, não sei o que houve direito, não me lembro bem - tudo lá e cá é quente e com névoa -, mas houve algo, alguma coisa, porque eu não esqueço da roupa de fim-de-semana e do pedido. que pedido? maldita Natasha.
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Saulo
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01:44
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15.4.07
domingo, 15 de abril
primeiro vem a parte burocrática do dia: levantar, lavar o rosto, tomar comprimido, escovar os dentes, torrar o pão, fazer café, ler a Folha, ler e-mails, orkutar, responder scraps, ver quem está online no MSN.
depois vem a parte realmente obrigatória e mais importante: fichar o livro Que é História?, terminar leituras, buscar por reportagens, começar - e terminar - o trabalho sobre objetividade X subjetivismo crítico.
e, no fim do dia, a parte mais simpática: fugir de casa por algumas horas, ver pessoas, comer pizza e assistir a algum filme (Maria, talvez) (essa "parte simpática" depende de pelo menos 60% da "parte obrigatória" cumprida).
ao trabalho!
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Saulo
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13:49
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13.4.07
Estou no meio de um corre-corre e de uma gritaria: fechamento de edição (dead line, para os íntimos) do nosso jornal. Mesmo que de forma precária/amadora, a gente faz aqui na faculdade um jornal para a favela São Remo (que fica do lado da USP).
O corre-corre é do pessoal - editores e diagramadores, que tentam terminar tudo da forma mais rápida possível - e a gritaria é minha, um simples repórter cultural que já terminou seu serviço há dias e que grita para deixarem-no revisar algum texto.
(Eu simplesmente a-do-ro revisar textos. Não sei bem por quê.)
Enquanto isso, vão preenchendo uma tabelinha no quadro aqui do laboratório de redação com o que já foi feito e com o que falta acabar. Um dos veteranos riu disso ("que bonitinho!").
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Saulo
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13:25
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12.4.07
a vez que a gente se encosta
sabe, Constant, naquele feriado em que você me contou que tinha acordado zoado sem saber o motivo, eu senti um apertozinho, daqueles pontudos; e depois daquilo percebi que quem acordava zoado todo dia era eu. tem dia que você não quer tirar a cabeça do travesseiro, mas sempre tem a merda do relógio, do rádio, do sol, do celular, da voz de humano que te diz bem-vindo ao mundo real. e são nessas horas de mundo real que eu me sinto como você, Constant, que eu me sinto também como naquele conto do Caio Fernando Abreu, em que a eu/você tá parada no bar enquanto a vida roda feito uma roda-gigante em que tem que ter senha pra entrar; e a gente fica sempe do lado de fora, Constant, a gente nunca consegue senha.
às vezes eu me pergunto por que todo dia não pode ser segunda de madrugada e depois me pergunto de novo por que todo dia não pode ser segunda de madrugarda com cinema aberto e vazio. passaria algum filme em preto-e-branco-e-cinza, com só eu na sala, engolido por aquele exército de bancos almofadados que já sentiram todas as bundas desse mundo. eu não queria todas as bundas do mundo. depois do filme eu desceria por aquelas ruas cheias de prédios só pra ver se em alguma daquelas janelas todas alguém está acordado. depois de filme preto-e-branco-e-cinza eu fico feliz, sabe, é meio que um remedinho temporário que faz eu procurar janelas, querer bater na porta, pedir um café, dizer "oi-tudo-bom-como-vai-vamos-ver-tv". é assim, Constant, é assim mesmo. você pode vir comigo no próximo filme; acho que você é o único que eu consigo ver nos dias de merda em que a vida parece um filme colorido-cheio-de-efeito-especial, tão enganadora que esconde o todo massante e tedioso. Constant, assim a gente fica vendo a roda-gigante girar. e quem sabe a gente vê um preto-e-branco-e-cinza depois e toma café na padaria.
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Saulo
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