– Como você faz pra deixar a barba assim, certinha?
– Oi?
– Como você faz pra deixar a barba assim? – repete Ele, mais alto.
No bar, um escurinho mixado com som alto de rock e três gotas de eletrônico. Tintins com vidros de martíni. “Saúde.” Misturas caras, de quase-nunca: gim inglês (Londres), purês de frutas, azeitonas nos espetos, alcaparrones pelos cantos.
NEle, medo número 1: ao falar alto, fazer doerem os ouvidos do Outro; medo número 2: cuspir nas têmporas do Outro com o aumento incomum de volume; medo número 3: deixar o Outro irritado com o teor pessoal/cosmético da questão.
Mas Outro é simpatia:
– Como assim, você não sabe fazer a barba?
E fala achando um pouco de graça. Pelo menos é o que sinaliza seu meio sorriso. Indecifrável é o sotaque.
– De onde você é? – pergunta Ele, com mais algum tipo de medo: o de a pergunta feita ser recorrente na vida do rapaz e, desse modo, aborrecê-lo.
Mas eram fragmentos de medos: vapores de medos que vêm e logo se dissipam – fica só o perfume. O medo ele mesmo permanece embaixo, preso.
E só eu sei: "de onde você é" soou melhor que "d’onde você é" que melhor seria que "você é mineiro ou carioca". É que o Outro tinha um quê de mineirice – uma, talvez, fofura-doce-de-leite-clarinho, se é que isso vem ao caso. Mas havia também uma raspinha de tacho de doce de leite mineiro de barba roçando universal de leve sotaque carioca [encaixe aqui].
Rio. Do interior do Rio, talvez.
Foi então que Outro respondeu que era capixaba, de uma cidade que poderia também ser chamada de Outra.
– Ah, já ouvi falar... – e não era mentira.
6.10.10
Subterrâneos
Por
Saulo
às
11:58
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