o xampú e as terras
eram frascos que pareciam garrafinhas, e as cores hoje me lembram os anos noventa. eu não entendia muito bem o que era o aloe vera ou a camomila dos rótulos, mas gostava de massagear meus cabelos com aquele xampús do snoopy. tinha o rosa, o amarelo, o azul... não me lembro bem de todas as cores, mas sei que não me apetecia muito o azul. deve ser estranhamente porque não existem comidas naturalmente azuis... refletia sobre isso desde muito cedo; umas das maiores questões da minha vida era se existiam frutas azuis-azuis. eu chegava à conclusão de que, não, elas não existem. mas, quando cresci um pouco e já tinha alguns pelinhos, descobri que existe blueberry. sei lá, bagas azuis. mas nem são tão azuis assim, vai.
eu corria na rua calçando chinelos, mas meus pés ficavam pretos mesmo assim. não sei como. e eu andava de bicicleta, de patins, tentava pular muros, jogar queimada, roubar frutas. e suava. eu tentava ser um moleque da rua, mas era pela metade, porque fazia as coisas de mal jeito, ou incompletas, para tentar não ser mau naquele mundo de divisões. chegava em casa e me lavava com o snoopy, e meus olhos nem ardiam. o gosto do xampú também nem era tão ruim assim; é daquelas coisas que uma vez na vida precisam ser sentidas.
nos tempos do xampú do snoopy, eu não me preocupava com tanta coisa que me cerca. ainda mais coisa-gente, essa coisa meio estranha que cerca todos no mundo, quase como uma uma cerca gigantesca maior que a muralha da China, demarcando uma fazenda mais gigantesca ainda, meio onírica, ora de terras improdutivas, ora de terras férteis, que às vezes é invadida ou ocupada -- dependendo de como se vê -- pelos que não têm terras, ou pelos que as têm e querem ter mais, mais e mais e experimentar todas as cores e texturas de solos existentes, como se existissem fazendas de argila, tchernozion, latossolo, terra-roxa. uma vontade obsessiva de querer ter e ser todas as terras, viver em diferentes fazendas, ser regado por diferentes águas de diferentes chuvas de diferentes céus de diferentes continetes de diferentes planetas.
minhas terras são meio afastadas, e nem sempre invadem as minhas cercas. de vez em quando, quebram alguns fios de arame farpado e tentam entrar, mas a maioria se vai embora. e eu permaneço em minha província; mas não agüento muito as minhas raízes presas na terra e me vou, inicio uma jornada de busca eterna, mas não invado outros reinos. prefiro avistar de longe as terras de outrem, tudo na metade, como nos dias de xampú em que eu era moleque pela metade. e não há quem me diga que o meu reino é onde os olhos alcançam, como no desenho da época do xampú, porque eu olho para os outros reinos de outras cercas e todos eles me apetecem, e todos eles eu chamo de meus reinos, e todos eles eu quero ter. não são reinos azuis, são rosas, amarelos, têm cheiro de xampú do snoopy, e eu caio por todos. olho de longe, tento me ater, eu tento me adequar, eu tento ser moleque de rua do avesso, mas eu não resisto e começa a se mexer no estômago aquele meu ente de ânimos aflorados, de revolução, de minha mão esquerda que é a que escreve, e eu corro para frente, eu toco no arame, eu tenho medo de me cortar, eu tento invadir, ocupar, e eu também abro as porteiras de minhas terras, talvez seja bom que elas sejam invadida às vezes, que alguém se ocupe delas, talvez a ocupação seja válida, talvez consigamos alcançar nossos objetivos, xampú para todos, mão esquerda para todos, muita terra, muito pão, muita paz, muito amor.
amor mesmo que o amor contradiga nossa vida.