Sob a água foi a questão: conhecer de interiores quase mentiroso. Um jogo. Tão bom. Segundo sua boca, já não havia mais novos sabores e cores de bolotas de chiclete para a gente conhecer. Você desceu, fui junto. Você sumiu, eu também. Você voltou, eu precisei ligar e saber se ela já voltaria. Tão gostoso. De grudar a vista.
9.3.10
3.3.10
neorrealismo italiano
um coçar de som áspero. no escuro. uma barba que custa a ser extirpada. no claro, eu vejo sua letra: algumas pontas, ls grossos e pontudos, linhas que escapam das linhas e dão quase uma volta. você é do tipo que gosta de cadernos grandes e com pauta. e eu rio - por dentro, porque, do seu lado, o silêncio é de ser absoluto -: você pula quatro linhas para começar a anotar a aula - por mais que a página seja continuação da anterior - e faz tudo direitinho: dois dedos, parágrafo, letra maiúscula; até fico meio sem jeito nos raros momentos em que (penso que) você vira para mim e olha a minha letra, toda bagunçada, toda sem pauta, sem parágrafo, com flecha, grifo, rabisco. mas você gosta de rabisco que eu sei, e de uma cor só de caneta - bic preta, seco assim - que você guarda no bolso da mochila, nem estojo você tem. e nem leva nada na bolsa, eu percebo quando você a joga no chão. no máximo, um guarda-chuva xadrez nestes dias de janeiro molhado. uma vez você saiu bem primeiro e fechou o portão, eu estava bem atrás; depois, quando saí, você olhou, daquele jeito. e eu gosto do jeito que você fica preso na sala de aula, não desce nem para um café, banheiro, água, eu até me sinto minha mãe com o café pra lá e pra cá, falta um cigarro que complete, e eu nem fumo, nem você, uma bênção, me empresta suas anotações que eu me atrasei pra aula, e que bom que você não me enche o saco de tantas vezes que eu me atraso - é o trânsito, a mãe, o pai, o cão, o dilúvio, a irmã que usou o carro, você sabe, a vida fica cheia de entraves de vez em quando. mas você prefere ficar jogando no celular em vez de falar qualquer coisa comigo, por quê? e por que eu prefiro fingir que leio o jornal em vez de falar qualquer coisa com você? assim fica mais difícil, eu vejo os pobres haitianos e soldados e volto ao mesmo parágrafo, vou, volto, olho para o lado, essa leitura não continua, e o professor volta para sala, e é a vez de eu me voltar pra ele e depois pra você. e, uma noite, aquele chuva que me fez correr pro carro, e você a continuar na rua, contra-mão, e eu a procurar pelo guarda-chuva xadrez. tem de ser por aqui, entre angélica e pacaembu, grande mancha, você pode ter ido pro ponto de ônibus alternativo, pegar carona, comer na padaria, mas eu sei que você foi andando. mas minhas investigações não funcionam muito bem. eu pensei que você ficasse com games e mais games em casa, mas não é assim, você tem um quê de comum, facebook, msn, vamos ver o filme que o professor contou hoje, amanhã augusta, francês novo, depois tem aniversário da Mônica, vamos?, cara, tive prova de emprego ontem e só dormi duas horas, não consigo mais dormir cedo, cara de sono, suco de laranja e torta salgadinha na padaria da esquina, e na livraria da esquina, você já foi?, são apenas quatro aulas para o fim do ciclo, e eu me lembro de quando eram muitas semanas, um ano todo, era mais fácil assim, mas eu tenho medo de ser rápido assim, como meus amigos são: supermercado, praia, pier, guanabara, camburiú. eu me reservo ao meu direito de ficar calado, você se reserva ao seu direito de espalhar um tanto de paixão pelos cantos da cidade que eu aumento o volume do rádio no carro, a chuva cresce, eu não posso correr e os vidros não podem embaçar e o celular toca, treme no bolso da coxa da calça, e uma luz real, sem luz artificial: plano aberto, corte. o corte faz o direitor. e o texto continua.
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Saulo
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01:45
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2.3.10
finally
- eu gostei daquela noite em que você me desenhou - ela disse.
um ano que não se viam. ele parecia ser do tipo que esquecia fácil das coisas.
- é, não lembra? no encontro das ilustrações. foi num boteco da augusta, com seus amigos. todo mundo com caneta colorida, papel manchado de cerveja... até eu entrei na dança.
ele, finalmente, se lembra. a menina acha aquilo tudo esquisito, mas é sequestrada do mundo, de novo, pelo sorriso dele.
- por que a gente não se viu de novo, né?
ele pisava no pé da menina de vez em quando, bem de levinho. ela gostava da brincadeira.
ele falava das coisas da vida dele. ela, das coisas burocráticas do mundo dela.
ela podia beber três drinques que não ficava soltinha. ele, sim. o pegar no cabelo dela foi o sinal.
- por que a gente não vai lá em casa assistir mais um do ozu? você, que é toda do cinema... tenho vários japoneses, lembra?
ela não prestou atenção e pediu mais um drinque.
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Saulo
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22:28
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19.2.10
whigfield
sonhei que te vi na plateia, mil cabeças pra lá, e você estava a beleza assim. eu teimava em não virar a cabeça, mas era impossível não querer ver se você ria nas mesmas partes em que eu ou se chorava quando me dava vontade --e eu forçava para manter a pose.
depois do espetáculo, fui à pizzaria, mil bloco pra cá, e lembrei da primeira e exclusiva vez em que estivemos aqui. não houve outra, e me arrependo de não ter aproveitado todo segundo, porque, vez ou outra, eu precisei me levantar para ir ao banheiro ou falar ao celular.
após pausa de 4 horas, volto ao espetáculo e você está no assento ao lado do meu. minutos depois, a gente troca de lugar.
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Saulo
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04:27
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5.2.10
J espanhol
Você disse, com toda a pulsão dos tempos jovens: vem pra cá. E cá é de outro lado, não do outro lado, e leva algum tempo de deslocar, não propício a esta hora da manhã, enquanto todos estão acordando e nós, só nós, nem fomos dormir. Eu, como reprimo toda a pujança juvenil, digo que não, não dá, deixa pra amanhã, vamos postergar o máximo, colocar na gaveta, tirar de vez em quando – eu não entendo como funciona mesmo. Um dia eu conheço o apartamento na famosa praça, com outros prédios rodeando, mas hoje não posso, e amanhã não sei, vamos nos falando por telefone, pode ser? E lá me vem: mas aqui eu tenho o que você quer, e você tem o que eu quero, simples assim. Mas, se nenhuma das roupas serviram, por motivos diversos (odeio ‘diversos’ como esconderijo da verdade), você tem o que me vestir, e parece fácil assim. Comidinha da mamãe, comidinha da manhã, dois lados, e eu sempre querendo saber mais do que devia: desenterrar/enterrar/escrever/recortar/colar e as perguntas absurdas - respostas óbvias demais ou inexistentes demais. Eu juro que anotei o celular, amanhã te ligo. Não sei a hora, não sei a que hora vou acordar. E, então, você se vai como um desligar de ligação. Fica um bip bip bip e, depois, silêncio. Espera eu acordar, vou ser outra pessoa.
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Saulo
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04:48
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