(elas nunca se cruzam)
alguns dias de não pensar em nada
alguns dias de pensar em você
meus olhos atravessam a folhagem, rumo ao céu. a mãe pergunta: 'tá apaixonado?'
'o menino maluquinho', eu leio
'triângulo das águas', eu leio
quando te vi pela primeira vez na lanchonete
quando te vi pela primeira vez na festa. sua melhor amiga, bonita ela, bonita você. de quando aprendo a arte de elogiar
dias de não pensar em nada e de escrever na segunda folha do caderno: aprender a arte de elogiar
a primeira página é sempre sagrada. a escrever
aquele dia em que te vi na festa... retorno. tua boca que virou teus olhos, teus olhos que viraram tua boca, tua boca que virou teus pés, teus pés que são sapatos que são balões no teto do apartamento, balões que se tornaram piscina, o prédio do lado, o asfalto molhado, a rua já calma, o tanque com gelo, as garrafas imersas, eu mesmo
gostei da sua cantoria. digo isto: da escolha. digo isto: dos seus olhos se fechando. eu rio
um gole no seu copo
é aniz, você diz
eu sempre soube, eu digo
é quando eu percebi a letra de música que você desconhecia e passei a te admirar
é por isso que vivemos tanto e nunca nos esbarramos
desde 'o menino maluquinho'
passa da hora de dormir, que é a hora da sinceridade:
eu queria não saber toda sua história pra brincar de criar
você diz pra gente brincar de inventar
as portas se abrem. lá fora, já tá sol
3.1.11
das retas paralelas
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Saulo
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16:18
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26.11.10
cabeça
'parece ouro preto', ele disse.
'nunca estive em ouro preto', eu disse.
e um mistério foi encontrado. primeiro, uma porta. depois, dois corpos. então, muitos e muitos e muitos mistérios mais.
confessei: 'gostei'.
e uma luz de não se ver bem. ao menos, escutei minhas canções prediletas. 'me lembram são paulo.'
mas dizem: aquele lá é do tipo de fazer esquecer da cidade. basta fechar os olhos.
eu digo: 'lembro de você, daqui de são paulo'.
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Saulo
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13:11
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6.10.10
Subterrâneos
– Como você faz pra deixar a barba assim, certinha?
– Oi?
– Como você faz pra deixar a barba assim? – repete Ele, mais alto.
No bar, um escurinho mixado com som alto de rock e três gotas de eletrônico. Tintins com vidros de martíni. “Saúde.” Misturas caras, de quase-nunca: gim inglês (Londres), purês de frutas, azeitonas nos espetos, alcaparrones pelos cantos.
NEle, medo número 1: ao falar alto, fazer doerem os ouvidos do Outro; medo número 2: cuspir nas têmporas do Outro com o aumento incomum de volume; medo número 3: deixar o Outro irritado com o teor pessoal/cosmético da questão.
Mas Outro é simpatia:
– Como assim, você não sabe fazer a barba?
E fala achando um pouco de graça. Pelo menos é o que sinaliza seu meio sorriso. Indecifrável é o sotaque.
– De onde você é? – pergunta Ele, com mais algum tipo de medo: o de a pergunta feita ser recorrente na vida do rapaz e, desse modo, aborrecê-lo.
Mas eram fragmentos de medos: vapores de medos que vêm e logo se dissipam – fica só o perfume. O medo ele mesmo permanece embaixo, preso.
E só eu sei: "de onde você é" soou melhor que "d’onde você é" que melhor seria que "você é mineiro ou carioca". É que o Outro tinha um quê de mineirice – uma, talvez, fofura-doce-de-leite-clarinho, se é que isso vem ao caso. Mas havia também uma raspinha de tacho de doce de leite mineiro de barba roçando universal de leve sotaque carioca [encaixe aqui].
Rio. Do interior do Rio, talvez.
Foi então que Outro respondeu que era capixaba, de uma cidade que poderia também ser chamada de Outra.
– Ah, já ouvi falar... – e não era mentira.
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Saulo
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11:58
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28.9.10
memorável
confesso que não tive tempo de pensar em você, senão naquele ínterim entre a conversa e a minha chegada de destino. no meio de um ou dois cochilos. nas trocas dos olhares entre o mesmo verbete e a avenida. e a outra avenida. e a outra outra avenida, tudo contra a tarde quente/seca/de espera. você olhou no meu olho, sorriu com a pálpebra. não consegui dizer nada. só pensei no seu lábio que constrói uma fala objetiva. no seu olho de você meio curvado, um fechado, outro aberto. no seu dedo sobre o botão. você dizendo sou mais cinema ela mais comercial. você dizendo você é o mesmo de ontem. você dizendo.
[s. paulo, v. nova, liberdade, l.a., umeboshi]
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Saulo
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02:36
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7.9.10
flamingos, 2
uma música do lado de lá de cima, os fones públicos, olho no cd, de olho em você na livraria, tudo isso tão fora de moda, e a saudade de ficar sentado ali a tarde toda, sem esperar nada.
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Saulo
às
03:56
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